
Santiago é uma capital feita para ser percorrida a pé e onde o visitante tem sempre um guia natural à disposição. Perdeu-se? Olhe para o lado, veja onde está a cordilheira dos Andes. Lá é o leste. Pena que está cada vez mais escondida, pois a poluição gerada pelos quase 6 milhões de habitantes da cidade enevoa os montes. E lá permanece a poeira, justamente porque as montanhas que circundam a cidade impedem que os poluentes se dissipem. Alguns poucos dias no ano (não mais que 5), o céu fica claro e é possível admirar o gigantismo e a beleza dos Andes. Pena eu não ter tido a sorte de pegar um destes 5 dias...
Enfim, se as montanhas se escondem na paisagem, escolha outra orientação. Uma alternativa é a avenida Libertador, a principal rua da cidade, que corta vários bairros e empresta o curso para a principal linha do metrô que, aliás, é abarrotado, mas silencioso. Outro guia é o rio Mapocho, que, limpo, mas com águas escuras, estabelece a fronteira entre vários bairros. A oeste está o centro, com os famigerados Palácio de La Moneda e a Plaza de Armas. Pouco mais além, do outro lado do Mapocho, Bellavista e suas casas coloridas, que servem de palco para restaurantes turísticos e casas de jazz envolventes (sim, Santiago tem seu lado Nova Orleans). Ainda mais além, atravessando novamente o rio, fica Providencia, outra zona boêmia, com pitadas de ruas chiques comerciais. Envolvendo tudo, ruas limpas, jardins impecáveis, trânsito organizado, táxis razoáveis e um povo que adora os brasileiros. Você pode arriscar seu melhor espanhol que ainda assim eles vão querer sempre conversar em português.
E por falar no povo chileno, é importante que se diga o quão politizados são, principalmente quando comparados à nós brasileiros! Qualquer motorista de táxi ou de ônibus, garçons e vendedores ambulantes sabem discutir (e bem) sobre a política brasileira, sobre nossa econcomia, nossos planos sociais, sobre nossa dívida externa, nossas exportações e outras coisas mais. Vá perguntar a um brasileiro quem é o presidente do Chile, aliás, a presidenta, e não se assuste que nem mesmo 10% da população irá saber! Lá, 96% da população é alfabetizada e a grande maioria se interessa por novos conhecimentos e por um intercâmbio cultural com os turistas.... uma realidade bem diferente da nossa.
Nem tão charmosa quanto Buenos Aires nem pitoresca como La Paz, Santiago tem encantos de outra grandeza. É civilizada, moderna, histórica e bonita. Como lá não existe um emaranhado de edifícios altos (os prédios são mais baixos por precaução aos tremores de terra), assiste-se a uma imagem privilegiada dos montes cobertos de neve, claro que quando você estiver em um dos 5 dias do ano em que isso é possível... Parafraseando o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), o Chile é um "país delgado" e pode-se afirmar o mesmo de sua capital, plana e de proporções miúdas, o que facilita o deslocamento inclusive a pé.
O primeiro passeio a ser feito em Santiago tem de incluir a subida de um morro. É preciso ser apresentado à cidade lá do alto: para contemplar a cordilheira e entender a arquitetura dos bairros. Para isso, é só escolher um dos cerros (colinas) que foram transformados em parques urbanos: o San Cristóbal e o Santa Lucia. O primeiro, chamado oficialmente de Parque Metropolitano de Santiago, é considerado o maior do Chile, com 712 hectares e um zoológico inteiro dentro dele. No topo, lembrando nosso Redentor, uma imagem de 14 metros da Imaculada Conceição. Para chegar ao alto, você pode subir de funicular (entrando pela calle Pio Nono) ou de teleférico (pela Pedro de Valdívia) ou caminhar (e muito, com a ressalva de que as ruas são vazias demais). O Cerro San Cristóbal é um dos refúgios dos chilenos nos finais de semana e é para lá que vão fazer seu pic nic, confraternizar com amigos ou mesmo andar de bicicleta. É interessante admirar a cidade lá de cima... ver seu traçado urbanístico e os principais elementos visuais: os andes, o rio mapocho, o cerro, dentre outros.
Já o cerro Santa Lucia é bem menor, mas não menos imponente. Possui uma fonte lindíssima, no estilo da romana Fontana di Trevi, com o personagem Netuno e seu tridente sobre as águas. Mais ao alto está o forte, utilizado por indígenas nas batalhas contra os espanhóis. A subida é dura e quase todo mundo a faz à pé, isso porque ninguém sabe que nas "costas" do cerro há um elevador discreto para quem procura mais comodidade! Assim, não se esqueça, quando chegar ao Cerro Santa Lúcia, faça o percurso ao contrário, entrado pelas "costas" e saindo pela frente... Você vai me agradecer depois por esta dica! rsrs
Depois que descer, esteja preparado para caminhar, à começar pelo Palácio de La Moneda. Inaugurado em 1805 para funcionar como a casa da moeda do país, o palácio tornou-se sede do governo 41 anos depois echegou a sofrer bombardeios em 11 de setembro de 1973. Foi no La Moneda que o ex-presidente socialista Salvador Allende, eleito em 1970, suicidou-se nesse mesmo dia, quando foi instaurado o regime militar comandando pelo ex-ditador chileno, o general Augusto Pinochet.
Só por sua importância histórica, o Palácio La Moneda já valeria uma tarde, mas o edifício costuma abrigar também exposições de arte. Aos fundos do palácio, sempre ocorrem mostras e exposições, como a dos carabineros, a polícia chilena. Para dar uma relaxada e pensar na vida, caminhe pelo calçadão em direção à Plaza das Armas, onde chilenos de diferentes origens sociais e turistas perambulam. No coreto, shows de música clássica e popular ocorrem quase que diariamente.
Em frente à praça, está a esplendorosa Catedral de Santiago, maior e mais importante templo católico do país. Embora a Catedral seja do ano 1748, sua primeira construção se deu em 1566, finalizando em 1600. Após séculos de muitos terremotos, a catedral permaneceu com a estrutura inabalada, mas optou-se por reconstruí-la para que tivesse proporções maiores, tal qual se encontra hoje. Em estilo neo-clássico, a fachada imponente da Catedral se confronta em meio ao modernismo do centro financeiro da cidade. Sua nave central é gigantesca, adornada por ricas imagens e ao teto se encontram afrescos de pintores italianos. Destaque também ao altar-mor, cópia da Catedral de São João e São Paulo em Roma, foi construído em Munique no ano de 1912, todo em mármore de carrara com aplicações de Lápizlázuli. À propósito, o lápisláluzi, para quem não o conhece, é uma pedra preciosa de rara tonalidade azul royal, existente apenas no Chile e no Afeganistão. Uma dica é trazer souvenirs da pedra para os amigos... aliás, um mimo concedido somente aos amigos mais especiais!
Nas redondezas da Catedral está a Paseo Ahumada, uma rua só de pedestres onde pode se passear e comprar... uma espécie de Calle Florida, guardada às devidas proporções. Primeiro que não tem o mesmo charme da similar portenha, segundo que não tem lojas tão interessantes e terceiro, que no Chile a população não é bela como na Argentina. Na Paseo Ahumada e suas "vizinhas" Augustinas e Huerfános é onde se econtram os famosos "Café com Pernas", ao estilo do americano "Hooters". Trata-se de uma cafeteria onde as atendentes usam microsaias, que hipnotizam a ala masculina e desperta a ira da ala feminina! Dá-lhe café!
Um pouco distante está o Parque Forestal (que se estende pela margem do rio Mapocho), criado na virada do século 19. Esculturas belíssimas de artistas renomados estão por todo o parque, como a que homenageia o desbravador Cristovão Colombo em suas navegações. Quase impossível não notar a imponência do prédio do Museu Nacional de Belas Artes, inaugurado em 1910, que divide o parque ao meio. O Museu é um passeio interessantíssimo, com ótimo acervo das belas artes chilenas e instalações admiráveis, como o belo teto de vidro.
O Mercado Central, que funciona das 6h às 16h, é o melhor lugar para apreciar as especialidades chilenas, principalmente frutos do mar. A construção de ferro pré-fabricada na Inglaterra e montada em Santiago em 1868, abriga barracas de peixe, como cação e salmão, baldes de ostras, mariscos, mexilhões, frutas e legumes. Os frutos do mar do Pacífico são bastante diferentes dos encontrados no Brasil e o salmão é considerado um dos melhores do mundo. Assim, puxe uma cadeira, escolha um bom vinho local e sinta-se bem longe de casa... Uma dica é o restaurante El Galeón, que oferece os pratos mais sofisticados e também, os mais limpos.
Já que estamos no âmbito gastronômico, não poderia deixar de mencionar sobre a nova febre local: "mote com huesillos", que é uma mistura de grãos de trigo cozidos com pêssegos desidratados. Uma mistura estranha e para falar a verdade, não tive nem coragem de experimentar! A aparência também não ajuda muito, mas lá comem isso aos montes, principalmente após algum exercício físico.... imagino que é o que substitui nosso revitalizante creme de açaí.
Agora sobre os vinhos... ah, os famosos vinhos chilenos! Quem for a Santiago e não conhecer as vinícolas de Concha Y Toro ou Causino Macul não pode se dizer ser um bom sommelier. Além de um passeio bonito, alí se conhece todo o processo de fabricação dos vinhos, desde a seleção das sementes que darão vida às novas parreiras, até a degustação de diferentes safras. Muitas lendas rondam o local, a mais famosa dela, materializou-se no rótulo Casillero Del Diablo. Tudo começou em 1883, quando o Melchor de Concha Y Toro trouxe da região da Bordeaux na França, as melhores mudas para o Chile. Estas se desenvolveram extraordinariamente bem no vale do Rio Mapocho e assim, o Melchor decidiu separar as melhores safras para consumo próprio em uma grande adega no porão de sua casa. Estranhamente os tonéis desapareceram e para evitar roubos futuros, o Melchor espalhou por toda a cidade que o diabo vivia dentro de sua adega e "dera cabo" de seus tonéis. Assim, quem ali adentrasse novamente, teria o imenso prazer de encontrar-se frente-a-frente com o diabo. A história se espalhou rapidamente pela cidade e houveram até relatos de pessoas que "realmente" o encontraram e a adega nunca mais fora saqueadas. Para saber mais acerca das vinícolas chilenas, basta clicar nesta opção no menu ao lado, na seção "especiais".
Outra bebida típica do chile é o Pisco, aguardente baseada fundamentalmente na destilação da uva que integra divesos coquetéis chilenos, como o delicioso Pisco Sour, uma mistura de limão, gelo, ovo (?), açúcar, angostura e claro, pisco.
No âmbito da diversão noturna, Santiago não é Buenos Aires nem Rio de Janeiro. Não é cidade festeira nos sete dias da semana e, comparada com outras capitais latinas, parece muito comportada. Dito isso, as quintas, as sextas e os sábados são bem agitados (talvez para compensar a falta de atividade do resto da semana), e uma multidão enorme e barulhenta sai para as ruas e os bares das áreas de vida noturna. Elas se dividem em três zonas principais Bellavista, Providencia e Nuñoa, cada qual com clima e clientela diferentes. Não se esqueça de que em Santiago os fins de semana só ficam animados bem tarde da noite, após 1 hora da manhã e o para quem procura diversão não pode perder a famosa Rua Suécia.
Santiago oferece ainda em suas redondezas, diversas estações de ski, tal qual Valle Nevado, Portillo, Colorado e Farellones. Na alta temporada (abril a setembro) pode-se divertir nas mais variadas atividades na neve, contando com infra-estrutura de excelente qualidade. Para quem não tiver muito tempo, um dia é suficiente para pelo menos conhecer a região, que ainda oferece passeios pelo Vale do Aconcágua.
Buen viaje!!
7 comentários:
Bateu saudade de um amigo chileno que eu tenho. Lindas paisagens chilenas
Muito legal o post!!
Já guardei para minha primeira visita ao Chile!!
Abs
Estive recentemente em Santiago. Sua descrição e sugestões são realmente boas e o texto muito bem escrito. Parabéns.
Adorei seu post! Você sabe qual é o visual da Cordilheira dos Andes no mês de janeiro? Estou pensando em conhecer a cidade nesse mês, mas acho que a cordilheira não deve ter mais neve. Bjs e parabéns pelo trabalho no seu blog!
Olá Regina!!
Obrigada pela visita!
Bem, a cordilheira tem neve eterna nos picos. Certamente que do avião você verá o belo visual, claro que não tão belo quanto no inverno, quando estão praticamente cobertas de neve, o que realça o relevo e as formas avantajadas das montanhas.
Se vc quiser fazer algum passeio que envolve a neve, tipo o Vale do Aconcágua ou às estações de ski (Valle Nevado, Portillo, Farellones, etc), estão todos fechados em janeiro. Na verdade vc pode ir conhecê-los visualmente, mas não há nada para se fazer.
Uma amiga foi em janeiro deste ano e as fotos dela de Portillo ficaram belíssimas, com uma paisagem completamente diferente da que eu conhecí, com muuuuuita neve!
Depois me conta se gostou da viagem e qualquer dúvida que tenha, não deixe de me comunicar.
Grande abraço,
Parabéns pelos comentários.Vc retratou fielmente toda Santiago.Estive lá recentemente, e adorei tudo o que vi. Caminhei muuuuito!!! rsrsrs.. aliás o Chile superou minhas espectativas.Amei visitar a casa do Pablo Neruda,Valparaizo,Viña del Mar, bem como o Vale Nevado na estonteante Cordilheira dos Andes.O Chile é nota 10 e quem for até lá não vai se arrepender.
Adoro Santiago e tb adorei os seus comentários sobre a cidade. Muito bom, parabéns!
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